sábado, 10 de julho de 2010

O Caso de Charles Dexter Ward de H. P. Lovecraft



H. P. Lovecraft (1890-1937) foi um escritor americano cuja obra não possui meio-termo. Todo o conjunto de seu trabalho está marcado pela literatura de terror. Apesar de influenciado por Edgar Alan Poe e Lord Dusany, Lovecraft elabora um universo e mitologias tão particulares e originais que o coloca num patamar diferenciado. Entretanto, em meio a um panteão extremamente original com suas deidades ancestrais, suas narrativas estão repletas de belíssimas descrições de cidades americanas antigas, especialmente Providence, sua cidade por excelência.

Lovecraft elaborou o Mito de Cthulhu através de uma obra perdida, o Necronomicon e seu escritor louco, o árabe Abdul Alhazared. O Necronomicon – livro fictício inventado por Lovecraft, assim como seu escritor louco – era um manual de invocação de demônios. Cthulhu é uma deidade ancestral de eons antiqüíssimos e toda a mitologia lovecraftiana gira em torno deste ser cósmico e o apelo ancestral que os deuses antigos mantêm no universo e que chega até nós.

Apesar de escrever apenas contos curtos, Lovecraft escreveu este pequeno e único romance: O Caso de Charles Dexter Ward. Este pequeno romance margeia toda a mitologia lovecraftiana. O livro principia com a narrativa do desaparecimento de Ward de um hospital particular para doentes mentais. O problema é saber, inicialmente, qual o motivo da loucura dessa “pessoa extraordinariamente singular”. É nesta busca pela origem da loucura que a narrativa se embrenha nos confins do extraordinário que habitava há séculos Providence. Esta origem aterradora se reporta à figura não menos enigmática de Joseph Curwen.

Ele era um “indivíduo extremamente assombroso, enigmático, sombriamente horrível. Ele fugira de Salem para Providence – o abrigo universal dos excêntricos, dos homens livres e dos dissidentes – no início do grande pânico da bruxaria, temendo ser acusado por causa de seus hábitos solitários e de suas curiosas experiências químicas e alquimistas”.

Curwen era um estudioso das ciências ocultas e se debruçava demoradamente sobre obras como o Zohar, a Ars Magna de Lully, o Thesaurus Chemicus de Bacon, a Clavis Alchimiae de Fludd, o De Lapide Philosophico de Tritêmio, entre outras, além do próprio Necronomicon. Em 1760, Curwen era “praticamente um proscrito, suspeito de vagos horrores e demoníacas alianças que pareciam ameaçadoras pelo fato de não poderem ser definidas, compreendidas ou mesmo comprovadas”.

Algumas incursões foram feitas na casa de Curwen para descobrir o que aquele estranho senhor sabia sobre o mundo oculto. Mas todos voltavam transtornados de suas peregrinações e foi esse o motivo da busca de Charles Ward: conhecer o desconhecido, aquilo que apenas o velho Curwen havia presenciado e que virara boato na cidade.

Ward descobre manuscritos de Curwen, principalmente uma biografia das suas viagens e descobertas. Ele se prepara para excursionar nos locais indicados por Curwen e retorna a Providence: “percorreu as longas milhas até Providence de ônibus, embebendo-se avidamente da visão das onduladas colinas verdejantes dos fragrantes pomares em flor e das brancas cidadezinhas com campanário do Connecticut primaveril [...] Quando o ônibus atravessou o Pawcatuck e entrou em Rhode Island no ar dourado e irreal de uma tarde de fim de primavera, seu coração batia com mais força e o ingresso em Providence, pelas avenidas Roservoir e Elmwood, foi uma coisa maravilhosa”. Mas é neste retorno que o jovem Ward encontrará o que deveria permanecer desconhecido – neste encontro, onde o absurdo se pronuncia com inegável poder e terror, a mente vacila e a loucura se instaura.



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segunda-feira, 5 de julho de 2010

A morte e a morte de Quincas Berro Dágua de Jorge Amado


No jornal carioca Última Hora, Vinícius de Moraes escreveu em 1959 sobre a novela A morte e a morte de Quincas Berro Dágua: "Saí da leitura dessa extraordinária novela, eu que andava no maior fastio de literatura, com a mesma sensação que tive, e que nunca mais se repetiu, ao ler os grandes romances e novelas dos mestres russos do século XIX, Pushkin, Dostoievski, Tostoi, Gogol especialmente. Uma sensação de bem-estar físico e espiritual como só dão os prazeres do copo e da mesa, quando se está com sede ou fome, e os da cama quando se ama. Ela representa dentro da novelística brasileira, onde já há cimos consideráveis, um cume máximo. Um cume que todos os escritores jovens devem ter em mira numa sadia inveja e num saudável desejo de ultrapassá-lo. E tanto pior se o não fizerem”.

Amado inicia sua pequena novela questionando sobre hora, local e a frase derradeira do morto, o Quincas. E vaticina: “Quincas Berro Dágua mergulhou no mar da Bahia e viajou para sempre, para nunca mais voltar. Assim é o mundo, povoado de céticos e negativistas, amarrados, como bois na canga, à ordem e à lei, aos procedimentos habituais, ao papel selado”.

Sempre entendi esta novela como um grito gigantesco de Jorge Amado contra a burocratização do real e, mais importante ainda, um grito de revolta contra a morte e em favor absoluto à vida. Aqui não é a morte quem doma e dirige as ações da vida. É a vida quem toma a morte em seus braços – literalmente falando, já que os amigos de farra irão carregar o velho defunto de lá pra cá – e impõe seu poder estrondoso de a tudo celebrar. Celebra-se a morte por inversão; logo, celebra-se a vida.

O mistério da morte permanece, mas a memória da vida está entranhada nos nossos suores e alegrias. Amado narra os esforços da família para que o velho Quincas voltasse a ser “aquele antigo e respeitável Joaquim Soares da Cunha, de boa família, exemplar funcionário da Mesa de Rendas estadual, de passo medido, barba escanhoada, paletó negro de alpaca”. O funeral se inicia e amigos, familiares e curiosos vão dar uma espiadinha no morto, “definitivamente espichado, morto em sua pocilga miserável”.

Quando da notícia de sua morte, há certa reverência por sua pessoa nos bares, mercados, feiras e comércios. Berro Dágua é meio irmão literário de Vadinho. Todos gostam dele, pois ele sabe celebrar a vida, andando de bar em bar, nos cabarés e no meio do povo. “Quando se encontrava, convidado de honra, na popa de um saveiro, ante uma peixada sensacional, as panelas de barro lançando olorosa fumaça, a garrafa de cachaça passando de mão em mão, havia sempre um instante, quando os violões começavam a ser penteados, em que seus instintos marítimos despertavam. Punha-se de pé, o corpo gingando, dava-lhe a cachaça aquele vacilante equilíbrio dos homens de mar, declarava sua condição de ‘velho marinheiro’. Velho marinheiro sem barco e sem mar, desmoralizado em terra, mas não por culpa sua”.

O melhor da narrativa acontece quando os amigos Curió, Negro Pestinha, Cabo Martim e Pé-de-Vento vão ao encontro do morto. No velório, Cabo Martim diz aos presente que, se estão muito cansados de velar o morto, podem ir descansar que eles ficarão por ali. Os amigos já estão cheios de cachaça e no meio da noite, no meio de outra garrafa de cachaça, decidem dar um trago para o morto também, já que ninguém é de ferro, morto ou vivo.

Os amigos decidem sair e levam o morto junto. “Quincas Berro Dágua, divertidíssimo, tentava passar rasteiras no Cabo e no Negro, estendia a língua para os transeuntes, enfiou a cabeça por uma porta para espiar, malicioso, um casal de namorados, pretendia, a cada passo, estirar-se na rua”. E assim a noite segue entre bares decrépitos, putas e muita cachaça.

Vinícius estava certo quando disse que Amado está numa classe de escritores “que fecundam a língua, que realmente libertam as personagens da sua própria teia psicológica e as fazem saltar, vivas e ardentes, para o lado de cá do livro”. O berro poderoso de um morto que ama a vida.

“Cada qual cuide de seu enterro, impossível não há”. Frase derradeira de Quincas Berro Dágua segundo Quitéria que estava ao seu lado.


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sábado, 26 de junho de 2010

Satyricon de Petrônio


O Satyricon de Petrônio é uma obra que espanta por sua extrema atualidade. Escrito por volta do ano 60 a.C., narra as aventuras e desventuras de Encólpio, Ascilto e Giton que perambulam em meio a Roma de Nero. Petrônio elabora uma refinada sátira sobre os costumes de sua época. O alegre e o terrível convivem lado a lado. Como a Roma Antiga não possuía a nossa moral – judaica e cristã – a sexualidade se expressava das mais diversas formas: heterossexuais, homossexuais, bissexuais e pansexuais se esbarram o tempo todo em busca de satisfazer suas necessidades mais fundamentais.

A edição que possuo é da Brasiliense com tradução de Paulo Leminski. Leminski traduziu a obra diretamente do Latim, mas se permitiu “modernizar” algumas expressões e orações inteiras para dar mais dinâmica a um texto tão vetusto – apesar de que às vezes Leminski exagera em suas “modernidades”. Mas Leminski mantém as referências essenciais do texto, acrescentando pequenas explanações esclarecedoras. Assim ocorre quando os amigos estão caminhando pela cidade quando se deparam com “um velho careca, vestido com um manto vermelho, jogando bola com uns garotos de cabelos longos como mulher”. Leminski explica: “Inter pueros capillatos ludentem pila. Entre os romanos, os cabelos compridos eram próprios dos jovens escravos destinados aos prazeres sexuais dos seus senhores”.

Um dos relatos mais célebres do romance é o banquete que se passa na casa de Trimalcião, um novo rico romano que quer demonstrar sua opulência num jantar memorável. A descrição da casa de Trimalcião revela um pouco os costumes da Roma Antiga: “[...] continuei a examinar as pinturas da parede. Numa, via-se o próprio Trimalcião, num mercado de escravos, cetro na mão, cabelos ao vento, entrando em Roma, conduzido pela deusa Minerva. Mais além, a pintura representava Trimalcião tendo aulas de cálculo, depois sendo feito tesoureiro, tudo cenas que o pintor tinha o cuidado de esclarecer com legendas. Na extremidade deste pórtico, o deus Mercúrio levantava Trimalcião pelo queixo até um alto tribunal. Ao lado, a deusa Fortuna, cornucopiosamente abundante, e as três Parcas tecendo com fios de ouro”.

No banquete, os convivas bebem o melhor Falerno que há e admiram “as magnificências que nos eram servidas”. O anfitrião diz que em tais banquetes é preciso ter conversas inteligentes e começa a falar sobre Astrologia. Depois é seguido por alguns discursos dos convidados. Em meio a tanta comida e bebida, Trimalcião pede para trazerem um porco e reclama: “Mas o que é isso? Não tiraram as entranhas do animal?”. Chama o cozinheiro que diz que havia se esquecido de destripar o porco. O anfitrião fica indignado e decide dar umas chibatadas no pobre cozinheiro. Os convidados pedem que ele perdoe o cozinheiro. Trimalcião, então, pede ao cozinheiro que destrinche o porco ali mesmo. Eis que começam a cair de dentro do animal “chouriços e lingüiças em profusão”. Era apenas uma brincadeira.

Por fim, depois de diversas desventuras, os amigos acabam nas mãos de Circe, uma sacerdotisa do deus Príapo. Circe deseja Encólpio e este até que tenta responder as investiduras da rainha. Mas quando começam as carícias, ele não consegue ter uma ereção. Circe, decepcionada e indignada, questiona: “Quer dizer então que meus beijos não te despertam nada? Será meu hálito? Ou o cheiro das axilas? Se não for isso, será que não consegues tirar da cabeça teu querido Giton?”. Os amigos elaboram um plano e se livram da rainha insaciável e continuam suas peripécias.

Este pequeno livro – que na verdade é um fragmento de uma obra maior e perdida – deve ser visitado por diversas razões, mas uma das mais interessantes é sua capacidade de nos falar sobre Roma Antiga de modo tão direto e claro. Leminski, no posfácio do livro, escreve esse sentimento superlativo que habita esta obra: “O Satyricon, para nós, é um texto onde, sobretudo, se come. E como se comia naquela Roma Imperial! Comia-se tudo, animais da terra, aves, peixes, salsichas, plantas, frutas, um apetite universal, absoluto, até o limite da fome. Bebia-se vinho em quantidades inverossímeis. É Roma, o imperialismo romano, devorando o mundo mediterrâneo, o trigo da Sicília e do Egito, os figos da África, o mel da Grécia, a pimenta do oriente. A devoração do mundo, a elefantíase do desejo e da gula”.

Bom apetite!


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quinta-feira, 17 de junho de 2010

Gog de Giovanni Papini

Retrato de Papini pintado por Oscar Ghiglia.

 Papini pode ser considerado um dos escritores mais fervorosos e contraditórios do seu tempo na Itália. De um cético declarado que se tornou católico no final da vida, Papini retrata em suas obras essa constante contradição que ele mesmo viveu. Sua estupidez e inteligência, seu sarcasmo e polidez, sua paixão e ódio pela literatura, sua capacidade e incapacidade de entender seu tempo afloram o tempo todo em suas obras.

Possivelmente seu livro mais conhecido seja O Diabo. Mas é em Gog que encontramos um Papini pleno, ciente de suas loucuras e extravagâncias, diletante consigo mesmo e com o mundo. Longe de alcançar a ira e a profundidade de um Nieztsche ou Cioran, por exemplo, este escritor florentino nos brinda com um livro interessante; mas interessante exatamente por causa daquilo que ele parece tanto odiar: a própria literatura. O desprezo com que trata seus interlocutores não é o que nutre o melhor do livro, mas sim as essências dos próprios interlocutores, bizarras ou não.

O tomo está dividido em 70 pequenas crônicas que se pretendem “filosóficas”. Papini elabora encontros imaginários com grandes nomes da cultura mundial: Ford, Lenine, Wells, Saint-German, Gandhi, Shaw, Frazer, Knut Hamsum (um dos poucos por quem ele nutre certo apreço e respeito), Pitágoras, entre outras figuras imaginárias que foram criadas para compor um mosaico que traduz seu desprezo descomunal pela cultura contemporânea.

Logo no início do livro, ele nos avisa que procurou visitar as grandes obras-primas da literatura. Fica decepcionado: “O que não entendia, me parecia inútil; o que entendia não me divertia ou me ofendia. Coisas absurdas, cacetes: às vezes insignificantes ou nauseabundas”. E arremata: “Ficou-me, porém, a dúvida de que a literatura seja incapaz de aperfeiçoamentos decisivos: é muito provável que ninguém, daqui a um século, se dedique a uma indústria tão atrasada e pouco rendosa”.

Entretanto, Papini deixa pistas sobre suas preferências. Na crônica O Canibal Arrependido – que conta o estrago que a civilização cristã causou num canibal ao convencê-lo de que comer carne humana não era saudável – está presente o canibal Quiqueg de Melville. Mas sem aquele poder descritivo maravilhoso do americano.

Na crônica Tudo Pequeno, podemos sentir uma presença quase onírica do Gulliver de Swifts. Mas é com Knut Hamsum que ele se identifica mais. Quando está na Noruega, ele decide visitar o famoso escritor que o recebe da maneira mais inusitada: “Consenti em receber o senhor porque o senhor não é nem um mendigo, nem um literato nem um jornalista nem um desocupado nem um editor nem um colecionador de autógrafos nem um admirador. Todos esses são igualmente insuportáveis”. No final da conversa, o escritor norueguês diz: “E o senhor também, apesar de não me ter pedido nada, já me tomou alguma coisa: meia hora do meu tempo e um pouco de minha força. O senhor também é um ladrão honesto, um ladrão bem educado – mas um ladrão”. Papini concorda com as palavras de Hamsum e diz que irá comprar todos os seus livros, pois “assim lhe ressarcirei delicadamente o tempo que perdeu por minha causa”.

Certos pastiches e absurdidades que dão à obra um tom quase burlesco não conseguem retirar do todo algumas qualidades que a mesma possui. Papini é um escritor erudito e, como disse antes, o que há de positivo em sua escrita é exatamente aquilo que ela quer combater. Um espelho invertido. Uma contradição ambulante.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Prolegômenos de Kant



Immanuel Kant é um daqueles pensadores que todo mundo já ouviu falar, mas pouquíssimos leram e entenderam. Alguns tentaram ler e, por não entenderem nada, desistiram. Outros nem se arriscaram diante da fama de infant terrible deste grande filósofo alemão. Mesmo desconhecido fora dos círculos acadêmicos, Kant é extremamente respeitado. Lembro de Nietzsche que dizia que sua autoridade advinha do fato de ninguém o entender. Com Kant é a mesma coisa. Ninguém lê ou entende, mas todo mundo respeita.

Mas há raros momentos em que os grandes filósofos, encimados nas mais altas montanhas do pensamento, decidem ter compaixão por nós, simples mortais, escrevendo uma obra mais leve, “mais fácil”, que possa instruir essa massa de retardados sobre suas ideias. Hegel com sua Estética, Nietzsche com sua Genealogia da Moral, Heidegger com seus Seminários de Zollikon, Foucault com sua Microfísica. Há vários exemplos.

É muito difícil – e não digo impossível por uma questão de educação – que alguém que não possua uma boa formação filosófica consiga entender a Crítica da Razão Pura de Kant. Esta obra basilar do pensamento filosófico Ocidental compõe, ao lado da Crítica da Razão Prática e da Crítica da Faculdade de Julgar, o alicerce monumental do pensamento kantiano e que constitui uma verdadeira convergência do pensamento filosófico que a precedeu. O problema é que a maioria dos leigos começa o enfrentamento com Kant através da primeira Crítica. Isso é covardia.

O momento de bom humor deste pacato cidadão de Königsberg se dá na sua obra Prolegômenos a toda Metafísica Futura. Aqui Kant explica de modo “sucinto” algumas concepções fundamentais que aparecem na Crítitca da Razão Pura, mas despidas dos longos, tortuosos, profundos e difíceis parágrafos que pululam o tempo todo na Crítica. O Kant dos Prolegômenos estava repleto de compaixão por nossa estupidez.

Kant discute as fontes da Metafísica, portanto, do conhecimento, e daí começa a elaborar sua teoria sobre os juízos: sintéticos e analíticos – bem como sua compreensão sobre espaço e tempo, condições a priori de todo conhecimento. Questiona-se sobre a possibilidade da Metafísica e chega à questão inevitável: Como é possível um conhecimento pela razão pura? Explica-nos que a experiência “não é senão uma contínua adição (síntese) das percepções” e explica os fundamentos do conhecimento matemático e a representação de conceitos na intuição, bem como de juízos intuitivos e discursivos, chegando às proposições apodíticas. Para Kant, a intuição “é uma representação que depende imediatamente da presença do objeto”.

Na segunda parte do livro, Kant discorre sobre a possibilidade de uma ciência pura da natureza. A natureza, em Kant, é “a existência das coisas enquanto esta é determinada segundo leis universais”. Então, ele partirá para discutir a necessidade, a experiência, os juízos empíricos, a percepção. É aqui que Kant nos mostra o seu Quadrológico dos Juízos: Segundo a quantidade, qualidade, relação e modalidade. O Quadro transcendental dos conceitos do entendimento: idem e o Quadro fisiológico puro dos princípios gerais da Ciência da Natureza: Axiomas da intuição, Antecipações da percepção, Analogias das experiências e Postulados do pensamento empírico em geral. Uma abordagem nova diante das Categorias de Aristóteles.

Por fim, discutindo a questão transcendental capital – Como é possível a Metafísica em geral – Kant nos brinda com uma explanação “leve” – será isso possível?! – sobre a dialética da Razão Pura e chegando aos limites mesmos desta mesma Razão.

Para quem já se aventurou pelo pensamento de Kant e saiu derrotado ou para quem tem medo dele, aconselho a começar por esta obra. Será um encontro mais amistoso com este monstro do pensamento humano. Monstro, diga-se de passagem, no sentido de grande, maravilhoso, genial. Ler Nietzsche sem conhecer Kant é ler meio Nietzsche. Por isso, creio eu, seria importante conhecer um pouco melhor ou simplesmente começar a conhecer este pensador tão original e responsável por uma verdadeira revolução na nossa tradição e que depois, ainda como hoje, continua sendo amado ou odiado, mas sempre estudado.

domingo, 6 de junho de 2010

Os 120 de Sodoma de Sade


O que o Satyricon de Petrônio, o Decameron de Boccacio, Sexus de Henry Miller, o Açougueiro de Alina Reyes e os poemas de Hilda Hilst possuem em comum com a obra Os 120 de Sodoma do Marquês de Sade? Simples: o sexo. Mas em cada uma dessas obras o sexo é encarado como pano de fundo para as digressões filosóficas, morais e religiosas destes escritores, enquanto que em Sade ele surge de modo inteiramente diverso. O sexo, em Sade, é o limite, o além de toda metafísica, a perversão da mente e do corpo, a transgressão mais radical possível, a negação e afirmação do outro a um só tempo. Nega-se, em Sade, tudo o que é saudável moralmente falando, tudo o que deveria ser tido como certo, tudo o que poderia fundar uma religião de cunho moral. No campo da ciência sexual – seja medicina ou psicanálise – Sade defende o que os outros chamariam de anomalias. Os jogos dos deveres morais, da apreciação estética moralista, do justo e injusto, da beleza e da feiúra, do medo religioso não tomam lugar neste escritor.

Os 120 de Sodoma narra as peripécias de um grupo de libertinos: o Duque de Blanges; seu irmão, o Bispo; Durcet e Curval que se embrenham num castelo - assessorados por quatro “damas”: Madame Duclos, Madame Champville, Madame Martaine e Madame Desgranges que estão ali para auxiliar nossos pervertidos a realizarem todos os seus desejos - após terem seqüestrado 18 jovens (oito meninos e oito meninas) e levado consigo mais oito homens avantajados e quatro criadas. O objetivo destes senhores é multiplicar e ampliar os objetos de seus prazeres, numa busca frenética pelo limite do corpo e da alma, mas isto sem piedade e com requintes de extrema crueldade. Quando as crianças apavoradas estão no primeiro dia no castelo, são recebidas com a seguinte indagação: “Se Deus existe, então ele intercederia por vocês. Mas como Deus não existe, nada neste mundo poderá lhes ajudar a deixar de passar pelo que nós reservamos para vocês!”.

Os amigos bebem a urina das crianças, jantam suas fezes, sodomizam seus corpos e jamais estão satisfeitos. Os horrores que as crianças são obrigadas a fazer se repetem dia a dia no castelo. São tratadas como cachorros, apanham, são torturadas, obrigadas a fazerem coisas repulsivas e degradantes. Os amigos, senhores de tudo por ali, debatem sobre como ampliar ainda mais seus prazeres, sempre insatisfeitos diante de uma sede incomensurável que os acomete sempre. Nada consegue satisfazer este apetite ancestral e tudo parece pouco diante desta fome de séculos.

Por fim, os amigos escandalizam as torturas: enfiam tubos nos ânus das crianças e colocam um rato faminto no mesmo; infectam-nas com doenças; obrigam-nas a correrem nuas no jardim durante um inverno rigoroso; esbofeteiam suas partes íntimas; colocam montículos de pólvora sobre seus corpos e depois incendeiam; sangram-nas e escarificam suas peles; achatam seus pés com um martelo pesado; crucificam as crianças, etc. A lista é enorme.

Sade relata, sem pudor algum, o lado mais “obscuro” do desejo humano. Deixa um legado incomum de coragem ao falar do que deveria sempre ser calado. Sua obra permanece atual porque o lugar do desejo é sempre atemporal: o outro. Mas aqui, através de uma visão quase irreal, o outro é o mesmo. Realmente, eu recomendo, mas apenas para quem possuir estômago forte.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O Banheiro de Jean-Philippe Toussaint


Jean-Philippe Toussaint é um escritor belga que é pouco conhecido aqui no Brasil, apesar de outras obras suas como Fugir, A Televisão e Fazer Amor terem sido, assim como O Banheiro, traduzidas para o português (situação bem diferente do escritor Tom Sharpe que ainda não teve o privilégio de ver sua obra prima, Wilt, ser traduzida para o nosso idioma). Possivelmente este desconhecimento se deva ao fato inegável de que a literatura de Toussaint é bastante incomum. Sua obra gravita sobre as coisas mais banais possíveis, porém possuindo um senso estético e filosófico muito aguçado.

O Banheiro, que parece se situar como uma obra pós roman nouveau, relata a estória de um intelectual diletante que é sustentado por sua linda namorada, Edmondsson. Sua decisão repentina de mudar-se para o banheiro surpreende a todos, mas por trás desta escolha reside uma opção estética: habitar na quietude para, na elasticidade do tempo, poder meditar sobre coisas aparentemente banais. Nesta reclusão voluntária, ele pode apreciar coisas simples com uma intensidade inusitada: “Duas vezes por semana eu escutava a resenha das partidas do campeonato francês de futebol. A emissão durava duas horas. De um estúdio parisiense, o apresentador orquestrava as vozes dos enviados especiais que acompanhavam os encontros nos diversos estádios. Sendo da opinião de que o futebol ganha ao ser imaginado, nunca perdia esses encontros marcados. Embalado por animadas vozes humanas, eu escutava as reportagens com a luz apagada, às vezes de olhos fechados”.

Esta solidão voluntária permite-lhe contemplar as coisas de um ângulo novo: “Chovia. A rua estava molhada, a calçada escura. Carros estacionavam. Outros, já estacionados, estavam cobertos de chuva. As pessoas atravessavam a rua rapidamente, entravam e saíam dos correios cujo edifício moderno me fazia frente. Os vidros começavam a ficar embaçados. Atrás da fina película de vapor, eu observava os transeuntes que depositavam sua correspondência. A chuva lhes dava ares de conspiradores: imobilizavam-se em frente à caixa do correio [...] Aproximei o meu rosto da janela e, os olhos colados contra o vidro, tive de repente a impressão que toda esta gente estava dentro de um aquário. Estariam com medo? O aquário se enchia lentamente”.

O humor sutil permeia sua narrativa, dando-lhe leveza frente a este peso natural que a solidão possui. Este humor é sentido quando dois artistas poloneses, Wiltod Kabrowinski e Kovalskazinski Jean-Marie, são contratados por sua namorada para pintarem seu apartamento. Edmondsson, após o jantar com os dois convidados-pintores, diz que quer fazer amor e mal espera que estes saiam e já começa a tirar a roupa: “Mal havia terminado de fechar a porta atrás dos convidados, Edmondsson tirou a saia e a meia-calça, a qual fez deslizar sobre suas pernas requebrando-se. Pela estreita fresta, Kabrowinski prolongava a despedida; agradecia pelo jantar e, a respeito da cor, recomendava o bege num tom distraído. Quando Edmondsson quis terminar de fechar a porta, Kabrowinski, muito vivo, enfiou o cabo de seu guarda-chuva no vão e, sorrindo para ser perdoado, agradeceu outra vez, de uma maneira diferente, pelo excelente jantar. Após um silêncio, retirou o guarda-chuva e, enquanto Edmondsson, escondida pela parede, se desembaraçava da calcinha, Kabrowinski revelou-se mais explícito. Tentava conseguir um adiantamento sobre o valor prometido, queria um trocado para pegar um táxi e pagar o hotel. Edmondsson mantinha-se firme”.

Num rompante, o personagem decide viajar e passar alguns dias sozinhos num hotel, mas este mundo dos vivos, esta agitação cotidiana de uma grande cidade o entedia. O seu motor, sua fonte de energia e prazer é a mente e assim ele retorna ao aconchego de seu banheiro e segue sua vida numa busca pela quietude máxima. Mas, numa reviravolta, o livro (que possui na edição brasileira da Nova Fronteira apenas 80 páginas) termina com nosso intelectual decidindo sair do banheiro.

O que me agrada neste pequeno romance é a falta de psicologismo, seu humor mordaz e as observações interessantes sobre as mais variadas coisas: sua perspicácia em observar cores, formas, texturas é, inegavelmente, um olhar atento sobre o mundo, só que numa abordagem que lembra aquele olhar distante e quase silencioso que Beckett lança em seu Molloy. Realmente, eu recomendo.